(Crédito: Divulgação Prêmio Innovare/Arpoador Filmes)

A justiça brasileira inaugurou um novo paradigma de atuação preventiva em Alcântara, no Maranhão, com o lançamento da Praça de Justiça e Cidadania em Alcântara. Esta prática jurídica inovadora, que está em funcionamento desde novembro de 2024, visa solucionar o complexo e secular conflito fundiário que envolve 152 comunidades quilombolas e o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).

A relevância da Praça de Justiça e Cidadania em Alcântara reside em sua capacidade de reverter graves violações de direitos humanos, como o deslocamento compulsório e a violação do direito à propriedade coletiva, que se arrastavam por mais de quatro décadas. Ao atuar de forma proativa, o Judiciário brasileiro antecipou-se à possível condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) no caso "Comunidades Quilombolas de Alcântara vs. Brasil", fortalecendo a soberania nacional e elevando o padrão de proteção judicial.

A prática foi finalista na Categoria Juiz da 22ª. edição do Prêmio Innovare, em 2025.

Como funciona a Praça de Justiça e Cidadania em Alcântara?

A iniciativa representa uma reconfiguração profunda da atuação judicial, transformando magistrados de uma posição clássica de "juiz do contencioso" para a de catalisadores proativos de transformação social e mediadores institucionais. Em vez de apenas aguardar a provocação processual, o Judiciário construiu ativamente pontes para solucionar um litígio estrutural unificado que envolvia 37 processos judiciais isolados.

O modelo da prática foi estruturado em uma metodologia bifásica:

1. Saneamento Jurídico-Fundiário: Realização de diagnóstico abrangente e georreferenciamento para a transferência formal das matrículas imobiliárias das terras em conflito para o patrimônio da União, com gravames protetivos e destinação específica às comunidades quilombolas.

2. Implementação e Titulação: Articulação interinstitucional coordenada para identificação das famílias impactadas, regularização documental (certidões de nascimento, óbito) e constituição da cadeia sucessória, assegurando soluções que abrangem direitos territoriais e individuais (indenizações).

Resultados quantitativos e o impacto social

O principal fator de sucesso foi a articulação interinstitucional estratégica, que uniu mais de 40 instituições em uma "rede vinculante de voluntariado", superando a morosidade judicial estrutural. Essa governança multi-institucional possibilitou resultados concretos e transformadores:

A metodologia de litígios estruturais consensuais desenvolvida em Alcântara demonstrou ser uma alternativa eficaz aos processos repetitivos que congestionam os tribunais.

Articulação e Lideranças Chave em Alcântara

A Praça de Justiça e Cidadania em Alcântara foi coordenada pelo Sistema de Conciliação da Justiça Federal da 1ª Região (SistCon/TRF1) em parceria estratégica com o Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA). A rede vinculante de voluntariado integrou o Poder Judiciário (TRF1, TJMA, Justiças Eleitoral e Trabalhista), órgãos do Executivo (AGU, INCRA, Ministério da Defesa/Comando da Aeronáutica, CLA, IPHAN, CEF), Funções Essenciais à Justiça (MPF, DPU), governos estadual e municipal, cartórios registrais e as próprias comunidades quilombolas como protagonistas.

Os responsáveis pela prática são o Desembargador José de Ribamar Froz Sobrinho (TJMA), o Juiz Hugo Leonardo Abas Frazão (TRF1) e o Ministro Carlos Augusto Pires Brandão (STJ). A prática garantiu a participação das comunidades que, após anos de insegurança jurídica, expressaram o sentimento de que "Agora fomos ouvidos".

A Praça de Justiça e Cidadania em Alcântara não apenas pacificou um litígio histórico, mas estabeleceu metodologias replicáveis de prevenção judicial. A experiência é como transformar um ciclo vicioso de conflitos em um ciclo virtuoso de cooperação: o Judiciário deixou de apenas apagar incêndios processuais e passou a construir pontes sólidas de consenso e segurança jurídica, garantindo que a justiça seja entregue onde ela é mais necessária.